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“Teto de Guedes encontra muro de Trump”

Escrito por Maria Cristina Fernandes para o Valor Econômico11 de Jan de 2019 às 11:12
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Ministro da Economia Paulo Guedes. Foto: Adriano Machado/Reuters.
 
 

“Já se conhecem as cores de preferência da ministra dos Direitos Humanos para os enxovais de bebês, mas não se sabe como o ministro da Economia, Paulo Guedes, pretende financiar a transição para um sistema de capitalização na Previdência. O tema foi discutido durante toda a campanha sem que o economista, a despeito de reconhecer o custo elevado, revel[asse] como pretende bancá-lo.
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No discurso de posse, Paulo Guedes vangloriou-se de ter propagandeado o sistema de Previdência chilena no Brasil antes de qualquer outro economista. Só esqueceu de dizer que o sistema de lá precisou de uma contrarreforma porque nem todos os chilenos conseguiram se manter em pleno emprego a vida inteira e chegaram à idade de se aposentar com um benefício inferior ao salário mínimo.

Por onde passou, o regime de capitalização foi acompanhado da elevação de impostos que o viabilizaram. Mas o governo Bolsonaro, segundo o capitão da economia, será pautado pela simplificação, redução e eliminação de impostos. Chegou a dizer que gostaria de reduzir a carga tributária dos atuais 36% para aqueles 20% que originaram o quinto dos infernos onde foi parar Tiradentes.

Não precisa ir tão longe. É bem verdade que o ministro da Economia não aderiu à tese da taxação de dividendos, que considerava um modismo da campanha eleitoral, mas poderia, por exemplo, retomar a alíquota de 20% da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) do sistema financeiro. A elevação de cinco pontos percentuais na alíquota foi aprovada em setembro de 2015 e vigeu até o dia 31 de dezembro de 2018. Injetou mais de R$ 15 bilhões na economia sem fazer cócegas no sistema financeiro. [legislação capitaneada pela então senadora Gleisi Hoffmann, pelo que sei]

No terceiro trimestre do ano passado, o lucro líquido dos quatro maiores bancos (BB, Bradesco, Itaú e Santander) cresceu 28%, a segunda melhor marca de toda a série histórica. Se espera fazer um ajuste de 4% do PIB cortando a gasolina dos carros do Ibama e desprezando fontes como a CSLL das finanças, o ministro da Economia acabará por convencer de que sua missão no governo se resume a melhorar a remuneração do capital.

GUERRA DE ATRITO

Durante a campanha eleitoral, o vice-presidente da República radicalizou a solidariedade ao titular, acamado em São Paulo em decorrência do atentado sofrido um mês antes do primeiro turno. Hamilton Mourão substituiu-o em todos os compromissos possíveis, preferencialmente aqueles dirigidos ao mundo empresarial. Deu as boas-vindas ao 'capital de risco' para estradas e ferrovias, sugeriu um seguro cambial para compensar o impacto da flutuação da moeda e disse que privatizaria 'tudo o que fosse preciso'. Falava como a reencarnação do tenente-coronel Mario Andreazza, pela coordenação a ser exercida na infraestrutura.

Depois de constatar que teria menos peso na formação do ministério do que Olavo de Carvalho e perderia o Programa de Parceria em Investimentos (PPI) para a Secretaria de Governo de Carlos Alberto dos Santos Cruz, investiu nas finanças e propôs o alongamento da dívida interna.
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Fazia planos para o Brasil na mesma velocidade com que se punha a cobrar explicações dos filhos do presidente, de aliados e até de seus futuros colegas de ministério. A artilharia sofreu sua primeira avaria esta semana com a revelação de que seu filho havia sido agraciado com uma assessoria em seu emprego concursado no Banco do Brasil que elevou seus rendimentos para além do que ganha o pai. Não poderia esperar que a bonificação passasse incólume num governo que se dispôs ao desmonte da estrutura trabalhista e sindical.”
 

   

 

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